Vizualizar Versão Completa : A Reforma da Mentalidade Moderna
YiossufAdamgy
30-05-2006, 21:16
A REFORMA DA MENTALIDADE MODERNA (1)
René Guénon (in "Symboles fondamentaux de la Science sacrée", Gallimard)
Versão Poruguesa colocada por Yiossuf Adamgy
A civilização moderna surge na história como uma verdadeira anomalia: de todas as civilizações conhecidas, é a única que se desenvolveu num sentido puramente material, a única que não se apoia em qualquer princípio de ordem superior.
Este desenvolvimento material que já se produz desde há alguns séculos, e que se intensifica cada vez mais, foi acompanhado de uma regressão intelectual que esse desenvolvimento é manifestamente incapaz de compensar.
Referimo-nos, como se compreende, à verdadeira e pura intelectualidade, a que também poderia chamar-se espiritualidade, e que nada tem a ver com o que os modernos desenvolveram: a cultura das ciências experimentais tendo em vista as aplicações práticas que são susceptíveis de originar.
Basta um exemplo para compreender a extensão dessa regressão: a Summa Theologiae de S. Tomás de Aquino, era, no seu tempo, um manual para uso dos estudantes; onde encontraríamos hoje os estudantes capazes de a aprofundar e assimilar?
YiossufAdamgy
04-06-2006, 20:09
A REFORMA DA MENTALIDADE MODERNA (2)
René Guénon (in "Symboles fondamentaux de la Science sacrée", Gallimard)
Versão Poruguesa colocada por Yiossuf Adamgy
A decadência não se produziu de um único golpe e seria possível seguir os seus traços em toda a filosofia moderna. O surgimento do racionalismo e sentimentalismo, dois erros que apenas aparentemente se opõem, e que são na realidade correlativos e complementares, apenas foi possível devido à perda ou esquecimento da verdadeira intelectualidade. A partir do momento em que se negou ou ignorou qualquer conhecimento puramente intelectual, como aconteceu depois de Descartes, era logicamente inevitável o desenvolvimento, por um lado, do positivismo, do agnosticismo e de todas as aberrações «científicas», e, por outro lado, de todas as teorias contemporâneas que, insatisfeitas com o que a razão lhes fornece, procuram outra coisa, mas procuram-na do lado do sentimento e do instinto, isto é, sob a Razão e não sobre a Razão, chegando a ver, com William James, por exemplo, no subconsciente um meio para o homem entrar em comunicação com o Divino.
A noção de verdade, depois de ter sido desvirtuada até ao ponto de não passar de uma simples representação da realidade sensível, acaba por identificar-se, no pragmatismo, com a utilidade, o que se traduz na sua supressão pura e simples; com efeito, que importa a verdade num mundo em que as aspirações são apenas materiais e sentimentais?
Não é possível dar aqui conta de todas as consequências de um tal estado de coisas; limitemo-nos a indicar algumas entre as que se relacionam particularmente com o ponto de vista religioso. Começemos por notar que o desprezo e a repulsa que os outros povos, sobretudo os Orientais, experimentam em relação aos Ocidentais, provém em grande parte do facto de estes lhes surgirem, em geral, como pessoas sem tradição e sem religião, o que, a seus olhos, é uma verdadeira monstruosidade.
Um Oriental não pode aceitar uma organização social que não assente sobre princípios tradicionais; para um Muçulmano, por exemplo, a legislação em toda a sua dimensão, é apenas uma simples dependência da religião. O mesmo já aconteceu, em tempos, no Ocidente ? basta pensar no que foi a Cristandade durante a Idade Média; mas hoje, as relações inverteram-se. Com efeito, encara-se agora a religião como um simples facto social; em vez da ordem social estar inteiramente dependente da religião, é esta que é considerada como um dos muitos elementos que constituem a ordem social; e quantos católicos não aceitam sem qualquer dificuldade esta forma de ver! (...)
Não é possível escondê-lo: aqueles mesmos que se julgam sinceramente religiosos têm, na sua maioria, uma concepção muito limitada da religião ? esta não detem uma influência efectiva nem sobre o seu pensamento nem sobre a sua maneira de agir e encontra-se como que separada do resto da sua existência. Em termos práticos, crentes e descrentes comportam-se quase da mesma maneira.
Por outro lado, para a maior parte das pessoas, a religião é um assunto do domínio do sentimento, sem qualquer alcance intelectual; confunde-se religião com uma vaga religiosidade, reduzindo-a à moral; estreita-se o mais possível o lugar da doutrina, que no entanto é tudo o que há de essencial, aquilo de que tudo o resto deve decorrer logicamente. Sob este aspecto, o protestantismo que degenerou em pouco mais que um «moralismo» puro e simples, representa muito bem as tendências do espírito moderno; mas seria errado supôr que o próprio catolicismo não é afectado pelas mesmas tendências, não nos seus princípios, evidentemente, mas na forma como é habitualmente apresentado: sob o pretexto de o tornar aceitável para a mentalidade actual, fazem-se as concessões mais inadequadas, encorajando assim o que, pelo contrário, é necessário combater energicamente. Não insistimos sobre a cegueira dos que, sob o pretexto de «tolerância» se tornam cúmplices inconscientes de verdadeiras imitações fraudulentas da religião, cujas verdadeiras intenções estão longe de compreender.
Assinalemos apenas de passagem, a esse respeito, o deplorável abuso que se faz demasiado frequentemente da própria palavra «religião»: pois não se empregam a cada passo expressões como «religião da pátria», «religião da ciência», «religião do dever»? Não se trata de simples descuidos de linguagem, mas sintomas da confusão que existe em todo o mundo moderno, pois a linguagem apenas representa fielmente o estado espiritual; e tais expressões são incompatíveis com o verdadeiro sentido religioso.
Não é possível escondê-lo: aqueles mesmos que se julgam sinceramente religiosos têm, na sua maioria, uma concepção muito limitada da religião ? esta não detem uma influência efectiva nem sobre o seu pensamento nem sobre a sua maneira de agir e encontra-se como que separada do resto da sua existência. Em termos práticos, crentes e descrentes comportam-se quase da mesma maneira.
sem dúvida...
YiossufAdamgy
06-06-2006, 20:06
A REFORMA DA MENTALIDADE MODERNA (3 - Conclusão)
René Guénon (in "Symboles fondamentaux de la Science sacrée", Gallimard)
Versão Poruguesa colocada por Yiossuf Adamgy
Mas falemos do que é mais essencial, isto é, do enfraquecimento do ensino doutrinal, quase inteiramente substituído por vagas considerações morais e sentimentais que talvez agradem a alguns, mas que provocam a repulsa e afastamento dos que têm aspirações de ordem espiritual, e que, apesar de tudo, ainda existem na nossa época. Muitos, mais do que se poderia pensar, lastimam essa falta de doutrina; e interpretamos como sinal positivo o facto de hoje, mais que há alguns anos, surgir essa consciência de diversas proveniências.
É completamente falso afirmar, como já o ouvimos dizer, que ninguém compreenderia uma exposição de pura doutrina; mas porquê querer permanecer num nível inferior com a desculpa de que é o da maioria, como se fosse necessário privilegiar a quantidade em prejuízo da qualidade? (...) Deveremos acreditar que a generalidade das pessoas seria incapaz de compreender se acaso estivessem habituadas a um ensino doutrinal? (...)
Para terminar, uma questão que nos interessa particularmente ? porque depara o simbolismo, mais ou menos confessadamente, com tanta hostilidade? Seguramente por que nele se encontra um meio de expressão que se tornou totalmente estranho à mentalidade moderna, e porque os homens têm uma tendência natural para desconfiar do que não compreendem.
O simbolismo é o meio mais adequado ao ensino de verdades de ordem superior, religiosas e metafísicas, isto é, de tudo o que é recusado ou desprezado pelo espírito moderno; é o contrário do que respeita ao racionalismo, e assim, os seus adversários comportam-se, certamente sem o saberem, em verdadeiros racionalistas. Pensamos que se o simbolismo é hoje mal compreendido, mais uma razão para nele insistir, explicando tão completamente quanto possível, o significado real dos símbolos tradicionais, devolvendo-lhes todo o seu alcance intelectual em vez de os reduzir a simples temas de exortações sentimentais.
A reforma da mentalidade moderna com tudo o que implica: restauração da verdadeira intelectualidade e da tradição doutrinal, que do nosso ponto de vista, são inseparáveis, constitui, decerto, uma tarefa considerável; mas será isso razão para não a empreender? (...)
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